24 de julho de 2026 · Larissa Bombardi
Alimentos ultraprocessados e agrotóxicos: duplo veneno para o cérebro

Artigo publicado em 24 de julho de 2026 na Revista ReGeo (v.17, n.7), escrito por Fulvio Alexandre Scorza (EPM/UNIFESP), Larissa Beltramim (Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein / CEDECA Interlagos / SPDM), Larissa Mies Bombardi (USP / Universidade Livre de Bruxelas) e Paulo Teixeira (Câmara dos Deputados).
O consumo de alimentos ultraprocessados contaminados com agrotóxicos deve ser tratado como uma emergência silenciosa de saúde pública. É essa a tese central do artigo, que examina os efeitos sobre o cérebro e a necessidade de políticas públicas intersetoriais de saúde, segurança alimentar e nutricional, meio ambiente e clima.
O que são alimentos ultraprocessados
Alimentos ultraprocessados (AUPs) são produtos alimentícios ou bebidas industrializados formulados a partir de componentes alimentares e aditivos, geralmente sem incluir alimentos integrais. São exemplos os salgadinhos embalados, os refrigerantes, as refeições instantâneas e os alimentos fritos.
Costumam ter baixo teor de nutrientes e maiores quantidades de gordura, açúcar e aditivos — conservantes e aromatizantes artificiais, como glutamato e corantes. Sua presença cresce de forma acelerada em países desenvolvidos e em desenvolvimento, o que se explica em parte pela fácil disponibilidade, pelo preço acessível e por aditivos que os tornam muito saborosos.
O consumo de AUPs vem sendo associado a doenças cardiovasculares, obesidade, hipertensão, diabetes tipo 2, câncer e doenças neurológicas. Mais recentemente, diversos estudos apontaram associações entre o consumo de ultraprocessados e riscos elevados de comprometimento cognitivo e demências, doença de Parkinson e esclerose múltipla.
O veneno usado na lavoura vira ingrediente do pacote
Existe uma crença difundida de que o processamento industrial — lavagem, descascamento, cozimento — eliminaria os resíduos de agrotóxicos dos alimentos industrializados. Um estudo brasileiro desfez essa ideia.
Os pesquisadores analisaram a presença de resíduos de agrotóxicos em amostras de ultraprocessados de origem vegetal (refrigerantes, néctares, bebidas de soja, salgadinhos de milho, biscoitos salgados, biscoitos recheados, cereais matinais de milho e pães de forma) e de origem animal (linguiça de porco, salsicha, mortadela, hambúrguer de carne bovina, nuggets de frango, iogurte, leite achocolatado e queijo cottage).
Os resultados:
Resíduos de agrotóxicos foram encontrados em 16 das 27 amostras (cerca de 60%) de produtos derivados de milho, trigo, soja e cana-de-açúcar. Em produtos derivados de carne e leite, foram encontrados em 14 das 24 amostras (cerca de 58%).
Ao todo, foram identificados dez tipos de agrotóxicos: ácido aminometilfosfônico (AMPA), bifentrina, lambda-cialotrina, cipermetrina, clorpirifós, fipronil, acuron, glifosato, glufosinato e pirimifós metílico. Ou seja: produtos ultraprocessados com a soma de diversos agrotóxicos sendo consumidos pela população.
O ponto mais grave: a comida das crianças e dos bebês
Levantamentos realizados pelo IDEC (Instituto de Defesa de Consumidores) identificaram resíduos de agrotóxicos em diversos alimentos destinados ao público infantil, incluindo bisnaguinhas, salgadinhos, cereais infantis, mingaus e produtos lácteos destinados a bebês e à primeira infância.
Entre as substâncias detectadas encontram-se princípios ativos que não são aprovados para uso na União Europeia e que apresentam reconhecidos efeitos sobre o sistema nervoso — em violação ao direito humano à alimentação adequada e à segurança e soberania alimentar.
Entre os agrotóxicos encontrados nesses alimentos, destacam-se: benomil (não aprovado na União Europeia), lambda-cialotrina, cipermetrina, clorpirifós (não aprovado na União Europeia), clorpirifós-metílico (não aprovado na União Europeia), bifentrina (não aprovada na União Europeia), deltametrina, fenitrotiona (não aprovada na União Europeia), glufosinato de amônio (não aprovado na União Europeia) e pirimifós-metílico.
Essas substâncias pertencem principalmente aos grupos dos organofosforados e piretroides, reconhecidos por sua ação sobre o sistema nervoso: os organofosforados pela inibição da acetilcolinesterase e os piretroides pela alteração do funcionamento dos canais de sódio dos neurônios.
O que os agrotóxicos fazem com o cérebro
Do ponto de vista cerebral, certas classes de agrotóxicos — como carbamatos, organoclorados e organofosforados — podem causar danos significativos e são identificadas como fatores de risco para o desenvolvimento de doenças neuropsiquiátricas, como Parkinson, Alzheimer e Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). Esses agrotóxicos causam efeitos neurológicos negativos de forma indireta, ao desestabilizar os processos celulares, bioquímicos e moleculares fundamentais para o funcionamento normal do cérebro.
Vale ressaltar que, entre os dez ingredientes ativos de agrotóxicos mais comercializados no Brasil em 2023, sete não são aprovados para uso na União Europeia: mancozebe, acefato, clorotalonil, atrazina, S-metolacloro, glufosinato de amônio e diquate. Dentre essas substâncias, mancozebe, acefato, glufosinato de amônio e diquate apresentam evidências reconhecidas de neurotoxicidade, por mecanismos distintos — incluindo alterações neurológicas, inibição da acetilcolinesterase, interferência na neurotransmissão glutamatérgica e lesões do sistema nervoso central.
Além disso, a exposição a agrotóxicos entre trabalhadores e trabalhadoras rurais eleva a incidência de ansiedade, depressão e uma alarmante taxa de suicídio entre agricultores e agricultoras — duas vezes superior à média nacional —, sendo esse impacto na saúde mental uma das maiores inquietações das comunidades agrícolas globais.
Um problema de política pública, não de escolha individual
O Brasil ocupa posição de destaque na produção agrícola global, com cerca de 83 milhões de hectares cultivados. Na última década, o mercado brasileiro de agrotóxicos cresceu de forma acelerada, levando o país a ocupar uma das primeiras posições no ranking mundial de consumo. Esse crescimento não pode ser explicado apenas pela expansão da fronteira agrícola: entre 2000 e 2020, o consumo de agrotóxicos no Brasil cresceu em ritmo aproximadamente três vezes superior ao da área cultivada, evidenciando um processo de crescente dependência do modelo agrícola em relação aos insumos químicos.
A presença de agrotóxicos nos alimentos ultraprocessados constitui um sério e, lamentavelmente, ainda silencioso problema de saúde pública no Brasil. É essencial trazer à tona esse tema de relevante interesse público, dando visibilidade à importância do Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, como política pública no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN).
É necessária uma ação conjunta imediata dos diversos setores da sociedade e do poder público para salvaguardar a saúde da nossa população e o meio ambiente, atentando para a emergência climática, a fim de garantir um ambiente alimentar seguro, saudável e sustentável.
Como citar o artigo
SCORZA, F. A.; BELTRAMIM, L.; BOMBARDI, L. M.; TEIXEIRA, P. Alimentos ultraprocessados e agrotóxicos: duplo veneno para o cérebro. Revista ReGeo, São José dos Pinhais, v. 17, n. 7, p. 1-10, 2026. DOI: 10.56238/revgeov17n7-141
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